terça-feira, 26 de março de 2013

Frases de Vinicius De Moraes

Amar, porque nada melhor para a saúde que um amor correspondido.
Vinicius De Moraes

A gente não faz amigos, reconhece-os.
Vinicius De Moraes

Com as lágrimas do tempo e a cal do meu dia eu fiz o cimento da minha poesia.
Vinicius De Moraes

Se o amor é fantasia, eu me encontro ultimamente em pleno carnaval.
Vinicius De Moraes

A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida. 
Vinicius De Moraes

Por mais longa que seja a caminhada o mais importante é dar o primeiro passo.
Vinicius De Moraes

sexta-feira, 22 de março de 2013

A galinha-d'Angola



Coitada
Da galinha -
D'angola
Não anda
Regulando
Da bola
Não pára
De comer
A matraca
E vive
A reclamar
Que está fraca:

- "Tou fraca! Tou fraca!"

A bomba atômica



Dos céus descendo
Meu Deus eu vejo
De pára-quedas?
Uma coisa branca
Como uma fôrma
De estatuária
Talvez a fôrma
Do homem primitivo
A costela branca!
Talvez um seio
Despregado à lua
Talvez o anjo
Tutelar cadente
Talvez a Vênus
Nua, de clâmide
Talvez a inversa
Branca pirâmide
Do pensamento
Talvez o troço
De uma coluna
Da eternidade
Apaixonado
Não sei indago
Dizem-me todos
É A BOMBA ATÔMICA.

Vem-me uma angústia.

Quisera tanto
Por um momento
Tê-la em meus braços
A coma ao vento
Descendo nua
Pelos espaços
Descendo branca
Branca e serena
Como um espasmo
Fria e corrupta
Do longo sêmen
Da Via Láctea
Deusa impoluta
O sexo abrupto
Cubo de prata
Mulher ao cubo
Caindo aos súcubos
Intemerata
Carne tão rija
De hormônios vivos
Exacerbada
Que o simples toque
Pode rompê-la
Em cada átomo
Numa explosão
Milhões de vezes
Maior que a força
Contida no ato
Ou que a energia
Que expulsa o feto
Na hora do parto.



II



A bomba atômica é triste
Coisa mais triste não há
Quando cai, cai sem vontade
Vem caindo devagar
Tão devagar vem caindo
Que dá tempo a um passarinho
De pousar nela e voar...
Coitada da bomba atômica
Que não gosta de matar!

Coitada da bomba atômica
Que não gosta de matar
Mas que ao matar mata tudo
Animal e vegetal
Que mata a vida da terra
E mata a vida do ar
Mas que também mata a guerra…
Bomba atômica que aterra!
Pomba atônita da paz!

Pomba tonta, bomba atômica
Tristeza, consolação
Flor puríssima do urânio
Desabrochada no chão
Da cor pálida do helium
E odor de rádium fatal
Lœlia mineral carnívora
Radiosa rosa radical.

Nunca mais, oh bomba atômica
Nunca, em tempo algum, jamais
Seja preciso que mates
Onde houve morte demais:
Fique apenas tua imagem
Aterradora miragem
Sobre as grandes catedrais:
Guarda de uma nova era
Arcanjo insigne da paz!



III



Bomba atômica, eu te amo! és pequenina
E branca como a estrela vespertina
E por branca eu te amo, e por donzela
De dois milhões mais bélica e mais bela
Que a donzela de Orleans; eu te amo, deusa
Atroz, visão dos céus que me domina
Da cabeleira loura de platina
E das formas aerodivinais
- Que és mulher, que és mulher e nada mais!
Eu te amo, bomba atômica, que trazes
Numa dança de fogo, envolta em gazes
A desagregação tremenda que espedaça
A matéria em energias materiais!
Oh energia, eu te amo, igual à massa
Pelo quadrado da velocidade
Da luz! alta e violenta potestade
Serena! Meu amor, desce do espaço
Vem dormir, vem dormir no meu regaço
Para te proteger eu me encouraço
De canções e de estrofes magistrais!
Para te defender, levanto o braço
Paro as radiações espaciais
Uno-me aos líderes e aos bardos, uno-me
Ao povo, ao mar e ao céu brado o teu nome
Para te defender, matéria dura
Que és mais linda, mais límpida e mais pura
Que a estrela matutina! Oh bomba atômica
Que emoção não me dá ver-te suspensa
Sobre a massa que vive e se condensa
Sob a luz! Anjo meu, fora preciso
Matar, com tua graça e teu sorriso
Para vencer? Tua enérgica poesia
Fora preciso, oh deslembrada e fria
Para a paz? Tua fragílima epiderme
Em cromáticas brancas de cristais
Rompendo? Oh átomo, oh neutrônio, oh germe
Da união que liberta da miséria!
Oh vida palpitando na matéria
Oh energia que és o que não eras
Quando o primeiro átomo incriado
Fecundou o silêncio das Esferas:
Um olhar de perdão para o passado
Uma anunciação de primaveras!

A Berlim



Vós os vereis surgir da aurora mansa
Firmes na marcha e uníssonos no brado
Os heróicos demônios da vingança
Que vos perseguem desde Stalingrado.

As mãos queimadas do fuzil candente
As vestes podres de granizo e lama
Vós os vereis surgir subitamente
Aos heróicos prosélitos do Drama.

De início mancha tateante e informe
Crescendo às sombras da manhã exangue
Logo o vereis se erguer, o Russo enorme
Sob um sol rubro como um punho em sangue.

E ao seu avanço há de ruir a Porta
De Brandemburgo, e hão de calar os cães
E então hás de escutar, Cidade Morta
O silêncio das vozes alemãs.

segunda-feira, 18 de março de 2013

Vinicius De Moraes e Tom Jobim

Mais sobre a vida de nosso Poetinha



Vinicius de Moraes foi um diplomata, dramaturgo, jornalista,poeta e compositor brasileiro.Poeta essencialmente lírico, também conhecido como "poetinha", apelido que lhe teria atribuído Tom Jobim, notabilizou-se pelos seus sonetos. Conhecido como um boêmio inveterado, fumante e apreciador do uísque, era também conhecido por ser um grande conquistador. O poetinha casou-se por nove vezes ao longo de sua vida e suas esposas foram, respectivamente: Beatriz Azevedo de Melo (mais conhecida como Tati de Moraes), Regina Pederneiras, Lila Bôscoli, Maria Lúcia Proença, Nelita de Abreu, Cristina Gurjão, Gesse Gessy, Marta Rodrigues Santamaria (a Martita) e Gilda de Queirós Mattoso.

Sua obra é vasta, passando pela literatura, teatro, cinema e música. No campo musical, o poetinha teve como principais parceiros Tom Jobim,Toquinho, Baden Powell, João Gilberto, Chico Buarque e Carlos Lyra.

titulos de alguns livros de Vinicius De Moraes



O caminho para a distância

Forma e exegese

Ariana, a mulher

Poemas, sonetos e baladas

O caminho para a distância

Vinicius De Moraes nosso querido Poetinha



A primeira namorada




Tu me beijaste, Coisa Triste

Justo durante a elevação

Depois, impávida, partiste

A receber a comunhão.

Tinhas apenas seis ou sete

E isso ou pouco mais eu tinha

E tinha mais: tinhas topete!

- Por que partiste, Coisa Minha?




Foi numa missa da matriz

De Botafogo. Eu disse: "Cruz!

Como é que ela vai agora

Comer o corpo de Jesus..."

Mas tu fizeste, Coisa Linda

Sem a menor hipocrisia

É que eu nem suspeitava ainda

Da tua santropofagia...




Porque nas classes do colégio

Onde a meu lado te sentavas

Tornou-se diário o sacrilégio

Durante as preces: me buscavas.

E o olho cândido na mestra

Que iniciava a aula depois

Acompanhavas a palestra

Cuidando apenas de nós dois.




Mais tarde a gente revezava

E eu procurava tua calcinha

E longamente acariciava

Tua coisinha, Coisa Minha.

Nós ficávamos sérios, sérios

A face rubra mas atenta

- A vida tem tantos mistérios…

Tem ou não tem, Coisa Sardenta?




Depois casei, não com ela...

Mas com meu segundo amor

A mãe de Susana, a bela

E de Pedro, o mergulhador

Morávamos bem ali

Junto à ladeira sombria

Era tanta a poesia

Que quase, quase morri.




As mulheres vinham ver-nos

No nosso ninho de amor

Morte na mira de Vênus

Oxum querendo Xangô

E eu, embora só cuidasse

De amar-te (vê se conferes!)

Era um pobre Lovelace...

Não resistia às mulheres.




Mas foste (e fui) tão feliz

Nos nossos grandes momentos

Que não lamento o que fiz

Nem tenho arrependimentos.

Deste-me dois filhos lindos

E todo o amor que tens: eu

Embora às vezes mentindo

Nunca dava o que era só teu.

A miragem



Não direi que a tua visão desapareceu dos meus olhos sem vida

Nem que a tua presença se diluiu na névoa que veio.

Busquei inutilmente acorrentar-te a um passado de dores

Inutilmente.

Vieste - tua sombra sem carne me acompanha

Como o tédio da última volúpia.

Vieste - e contigo um vago desejo de uma volta inútil

E contigo uma vaga saudade…

És qualquer coisa que ficará na minha vida sem termo

Como uma aflição para todas as minhas alegrias.

Tu és a agonia de todas as posses

És o frio de toda a nudez

E vã será toda a tentativa de me libertar da tua lembrança.




Mas quando cessar em mim todo o desejo de vida

E quando eu não for mais que o cansaço da minha caminhada pela areia

Eu sinto que me terás como me tinhas no passado -

Sinto que me virás oferecer a água mentirosa

Da miragem.

Talvez num ímpeto eu prefira colar a boca à areia estéril

Num desejo de aniquilamento.

Mas não. Embora sabendo que nunca alcançarei a tua imagem

Que estará suspensa e me prometerá água

Embora sabendo que tu és a que foge

Eu me arrastarei para os teus braços.

A morte



A morte vem de longe

Do fundo dos céus

Vem para os meus olhos

Virá para os teus

Desce das estrelas

Das brancas estrelas

As loucas estrelas

Trânsfugas de Deus

Chega impressentida

Nunca inesperada

Ela que é na vida

A grande esperada!

A desesperada

Do amor fratricida

Dos homens, ai! dos homens

Que matam a morte

Por medo da vida.

A morte de madrugada







Uma certa madrugada

Eu por um caminho andava

Não sei bem se estava bêbado

Ou se tinha a morte n'alma

Não sei também se o caminho

Me perdia ou encaminhava

Só sei que a sede queimava-me

A boca desidratada.

Era uma terra estrangeira

Que me recordava algo

Com sua argila cor de sangue

E seu ar desesperado.

Lembro que havia uma estrela

Morrendo no céu vazio

De uma outra coisa me lembro:

... Un horizonte de perros
Ladra muy lejos del río...




De repente reconheço:

Eram campos de Granada!

Estava em terras de Espanha

Em sua terra ensangüentada

Por que estranha providência

Não sei... não sabia nada...

Só sei da nuvem de pó

Caminhando sobre a estrada

E um duro passo de marcha

Que em meu sentido avançava.




Como uma mancha de sangue

Abria-se a madrugada

Enquanto a estrela morria

Numa tremura de lágrima

Sobre as colinas vermelhas

Os galhos também choravam

Aumentando a fria angústia

Que de mim transverberava.




Era um grupo de soldados

Que pela estrada marchava

Trazendo fuzis ao ombro

E impiedade na cara

Entre eles andava um moço

De face morena e cálida

Cabelos soltos ao vento

Camisa desabotoada.

Diante de um velho muro

O tenente gritou: Alto!

E à frente conduz o moço

De fisionomia pálida.

Sem ser visto me aproximo

Daquela cena macabra

Ao tempo em que o pelotão

Se dispunha horizontal.




Súbito um raio de sol

Ao moço ilumina a face

E eu à boca levo as mãos

Para evitar que gritasse.

Era ele, era Federico

O poeta meu muito amado

A um muro de pedra seca

Colado, como um fantasma.

Chamei-o: Garcia Lorca!

Mas já não ouvia nada

O horror da morte imatura

Sobre a expressão estampada...

Mas que me via, me via

Porque em seus olhos havia

Uma luz mal-disfarçada.

Com o peito de dor rompido

Me quedei, paralisado

Enquanto os soldados miram

A cabeça delicada.




Assim vi a Federico

Entre dois canos de arma

A fitar-me estranhamente

Como querendo falar-me.

Hoje sei que teve medo

Diante do inesperado

E foi maior seu martírio

Do que a tortura da carne.

Hoje sei que teve medo

Mas sei que não foi covarde

Pela curiosa maneira

Com que de longe me olhava

Como quem me diz: a morte

É sempre desagradável

Mas antes morrer ciente

Do que viver enganado.




Atiraram-lhe na cara

Os vendilhões de sua pátria

Nos seus olhos andaluzes

Em sua boca de palavras.

Muerto cayó Federico

Sobre a terra de Granada

La tierra del inocente
No la tierra del culpable.

Nos olhos que tinha abertos

Numa infinita mirada

Em meio a flores de sangue

A expressão se conservava

Como a segredar-me: - A morte

É simples, de madrugada...


domingo, 17 de março de 2013

A anunciação



Virgem! filha minha

De onde vens assim

Tão suja de terra

Cheirando a jasmim

A saia com mancha

De flor carmesim

E os brincos da orelha

Fazendo tlintlin?

Minha mãe querida

Venho do jardim

Onde a olhar o céu

Fui, adormeci.

Quando despertei

Cheirava a jasmim

Que um anjo esfolhava

Por cima de mim...