segunda-feira, 18 de março de 2013

A morte de madrugada







Uma certa madrugada

Eu por um caminho andava

Não sei bem se estava bêbado

Ou se tinha a morte n'alma

Não sei também se o caminho

Me perdia ou encaminhava

Só sei que a sede queimava-me

A boca desidratada.

Era uma terra estrangeira

Que me recordava algo

Com sua argila cor de sangue

E seu ar desesperado.

Lembro que havia uma estrela

Morrendo no céu vazio

De uma outra coisa me lembro:

... Un horizonte de perros
Ladra muy lejos del río...




De repente reconheço:

Eram campos de Granada!

Estava em terras de Espanha

Em sua terra ensangüentada

Por que estranha providência

Não sei... não sabia nada...

Só sei da nuvem de pó

Caminhando sobre a estrada

E um duro passo de marcha

Que em meu sentido avançava.




Como uma mancha de sangue

Abria-se a madrugada

Enquanto a estrela morria

Numa tremura de lágrima

Sobre as colinas vermelhas

Os galhos também choravam

Aumentando a fria angústia

Que de mim transverberava.




Era um grupo de soldados

Que pela estrada marchava

Trazendo fuzis ao ombro

E impiedade na cara

Entre eles andava um moço

De face morena e cálida

Cabelos soltos ao vento

Camisa desabotoada.

Diante de um velho muro

O tenente gritou: Alto!

E à frente conduz o moço

De fisionomia pálida.

Sem ser visto me aproximo

Daquela cena macabra

Ao tempo em que o pelotão

Se dispunha horizontal.




Súbito um raio de sol

Ao moço ilumina a face

E eu à boca levo as mãos

Para evitar que gritasse.

Era ele, era Federico

O poeta meu muito amado

A um muro de pedra seca

Colado, como um fantasma.

Chamei-o: Garcia Lorca!

Mas já não ouvia nada

O horror da morte imatura

Sobre a expressão estampada...

Mas que me via, me via

Porque em seus olhos havia

Uma luz mal-disfarçada.

Com o peito de dor rompido

Me quedei, paralisado

Enquanto os soldados miram

A cabeça delicada.




Assim vi a Federico

Entre dois canos de arma

A fitar-me estranhamente

Como querendo falar-me.

Hoje sei que teve medo

Diante do inesperado

E foi maior seu martírio

Do que a tortura da carne.

Hoje sei que teve medo

Mas sei que não foi covarde

Pela curiosa maneira

Com que de longe me olhava

Como quem me diz: a morte

É sempre desagradável

Mas antes morrer ciente

Do que viver enganado.




Atiraram-lhe na cara

Os vendilhões de sua pátria

Nos seus olhos andaluzes

Em sua boca de palavras.

Muerto cayó Federico

Sobre a terra de Granada

La tierra del inocente
No la tierra del culpable.

Nos olhos que tinha abertos

Numa infinita mirada

Em meio a flores de sangue

A expressão se conservava

Como a segredar-me: - A morte

É simples, de madrugada...


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