segunda-feira, 18 de março de 2013

A primeira namorada




Tu me beijaste, Coisa Triste

Justo durante a elevação

Depois, impávida, partiste

A receber a comunhão.

Tinhas apenas seis ou sete

E isso ou pouco mais eu tinha

E tinha mais: tinhas topete!

- Por que partiste, Coisa Minha?




Foi numa missa da matriz

De Botafogo. Eu disse: "Cruz!

Como é que ela vai agora

Comer o corpo de Jesus..."

Mas tu fizeste, Coisa Linda

Sem a menor hipocrisia

É que eu nem suspeitava ainda

Da tua santropofagia...




Porque nas classes do colégio

Onde a meu lado te sentavas

Tornou-se diário o sacrilégio

Durante as preces: me buscavas.

E o olho cândido na mestra

Que iniciava a aula depois

Acompanhavas a palestra

Cuidando apenas de nós dois.




Mais tarde a gente revezava

E eu procurava tua calcinha

E longamente acariciava

Tua coisinha, Coisa Minha.

Nós ficávamos sérios, sérios

A face rubra mas atenta

- A vida tem tantos mistérios…

Tem ou não tem, Coisa Sardenta?




Depois casei, não com ela...

Mas com meu segundo amor

A mãe de Susana, a bela

E de Pedro, o mergulhador

Morávamos bem ali

Junto à ladeira sombria

Era tanta a poesia

Que quase, quase morri.




As mulheres vinham ver-nos

No nosso ninho de amor

Morte na mira de Vênus

Oxum querendo Xangô

E eu, embora só cuidasse

De amar-te (vê se conferes!)

Era um pobre Lovelace...

Não resistia às mulheres.




Mas foste (e fui) tão feliz

Nos nossos grandes momentos

Que não lamento o que fiz

Nem tenho arrependimentos.

Deste-me dois filhos lindos

E todo o amor que tens: eu

Embora às vezes mentindo

Nunca dava o que era só teu.

Nenhum comentário:

Postar um comentário